O futuro da saúde como um bem de consumo

 

A saúde está se transformando. Disso ninguém duvida. Entretanto, os rumos que ela tomará nos próximos anos e o impacto em nossas vidas envolvem mais incertezas do que certezas.

Do ponto de vista mercadológico, a saúde no Brasil se assemelha à educação em vários aspectos. Ambas são serviços, dominados no Brasil pelo setor público e, consequentemente, sucateados. A situação da saúde é mais alarmante por envolver diretamente vidas humanas, e agravada pela escassez de profissionais que promove, dentre outros fatores, altos custos e uma inflação altíssima. Analogamente à educação, a lei de 2015 que autorizou a participação direta e indireta de investidores com capital estrangeiro no setor de saúde do Brasil contribuiu para duplicar o número de deals na área de saúde, ano após ano. Além do bom cenário interno, outro sinal promissor é o crescimento intenso das atividades e investimentos em startups do setor fora do país

E a tecnologia nisso tudo? O contexto de negócios é o gatilho do processo de redesenho de um setor, e a tecnologia atua como um catalisador, acelerando o processo de remodelagem do mercado. No caso da saúde, a tecnologia é uma faca de dois gumes: Se por um lado ela ajuda a reduzir custos através da automação de processos e da redução da incidência de doenças, por outro, ela pode ajuda a criar métodos de diagnóstico e tratamento experimentais mais efetivos, e em geral mais caros que os atuais e que acabam sendo exigidos pelos pacientes e incorporados por planos e hospitais, encarecendo ainda mais as contas médicas. Por hora, empresas e investidores vem favorecendo o viés da redução de custos e sinistralidade. Sendo assim, a principal função da tecnologia hoje é ajudar no design de serviços orientados ao cliente, suportando o processo de transição entre uma saúde reativa mais custosa (espero ficar doente para me tratar) para uma saúde proativa mais barata (evito, antes mesmo de aparecerem os primeiros sintomas).

As pessoas não são pacientes o tempo todo. Aliás, se tivéssemos um sistema de saúde perfeito e infalível, elas nunca viriam a ser! Esse pensamento é o passo fundamental para a construção de um sistema centrado no consumidor. Cada vez mais, os serviços principalmente de atenção primária serão abundantes e disponíveis, facilitando a prevenção, a identificação e resolução de casos facilmente tratáveis, evitando internações desnecessárias. A esse fenômeno, damos o nome de consumerização da saúde. Deste modo, para que uma empresa crie um diferencial estratégico nesse setor, seus serviços de saúde devem estar a um clique do consumidor final. Os gigantes da tecnologia como Apple, Google e Amazon já notaram esta tendência, e estão lançando algumas iniciativas na tentativa de capturar parte desse potencial. Uma das ideias seria transformar suas respectivas assistentes pessoais (Siri, Alexa, etc.) em consultoras de saúde de bolso.

O símbolo máximo da consumerização da saúde são as clínicas de varejo, que no Brasil tomaram a forma de clínicas populares. Apesar de parecer recente, o conceito já é consolidado, existindo nos EUA desde os anos 2000. Essas clínicas realizam atendimentos eletivos, exames diagnósticos básicos e encontram-se em áreas comerciais da cidade, aproveitando o mesmo fluxo de pessoas que vão a essas zonas fazer compras. As clínicas podem funcionar de maneira avulsa ou complementares a planos de saúde (ajudando-os a reduzir custos de atendimentos de urgência, pronto-socorro e internações) e com o envelhecimento da população, atuar no lado preventivo parece ser a estratégia mais inteligente a seguir. A camada de tecnologia se encaixa aqui tornando a experiência do cliente mais fluida possível e gerando engajamento do paciente na coleta de dados médicos, no acompanhamento de tratamentos e no desenvolvimento de hábitos saudáveis – o maior desafio da nossa geração.

Outro vetor importante para a redução de custos e ganho de escalabilidade é a telemedicina. Hoje, diversas empresas usam essa técnica para emissão de laudos médicos, o que já não é mais novidade no mercado, mas sua face mais disruptiva é a consulta médica remota. A teleconsulta desafia alguns princípios básicos da relação médico-paciente e nesse sentido, o formato mais aceito pelo Conselho Federal de Medicina é a consulta paciente-médico-médico, que ocorre quando um generalista procura ajuda de um especialista (remoto) para completar o diagnóstico de um paciente. Algumas empresas como a ConnectCare já estão utilizando esse formato para a reduzir custos de consultas. Abstraindo um pouco mais esse conceito, podemos imaginar também um formato paciente-profissional de saúde-médico, substituindo o binômio “médico generalista-médico especialista” por por exemplo “enfermeiro-médico”, otimizando ainda mais os custos desse serviço, principalmente para o acompanhamento de doentes crônicos.

Muito se fala sobre Inteligência Artificial, e mais especificamente sobre machine learning. O princípio do machine learning é o reconhecimento de padrões em dados, sem a programação prévia de nenhuma lei subjacente especificando que padrões são esses. É como houvesse uma caixa preta coletando dados e emitindo resultados. Você diz a essa caixa qual resultado quer obter e ela, através de uma metodologia estatística, busca as principais combinações de entradas para chegar nele. Uma aplicação direta dessa tecnologia consiste em bots de atendimento que ajudam a realizar a triagem de pacientes, encaminhando-os para o médico com a anamnese (questionário inicial) pronta e já com cenários de possíveis diagnósticos para o médico. Entre o hype e a aplicação prática, ainda temos uma grande lacuna: Para que essa tecnologia funcione adequadamente, é preciso uma retroalimentação constante com grandes volumes de dados. O problema é que poucas empresas brasileiras tem uma estruturação adequada desses dados, e menos empresas ainda sabem o que fazer com eles. Com dados inconsistentes, empresas nesse estágio de desenvolvimento tecnológico só conseguiriam obter resultados igualmente inconsistentes.

Ainda vai demorar um tempo para que seu médico seja um robô, ou talvez isso nunca venha a acontecer, restando aos autômatos as tarefas mais simples do fluxo de atendimento. Entretanto, o grau de interação entre homens e máquinas irá aumentar, expandindo o acesso a serviços de saúde e enriquecendo as bases de dados das empresas do setor. Com a abundância de dados, essas empresas explorarão comercialmente esse ativo de maneiras inovadoras, seja no desenvolvimento de novos tratamentos, provendo soluções em marketing de saúde ou em segurança da informação. De maneira análoga ao Facebook ou Google que são empresas de marketing que captam dados de usuários usando como vetor respectivamente interações sociais e mecanismos de busca, as empresas de saúde do futuro serão gestoras de dados que captam informações de seus clientes através do fornecimento de serviços de saúde. E talvez Facebook, Google, Amazon e Apple estejam se preparando para se tornarem essas empresas… (Como? Eu falo um pouco sobre isso nesse artigo)