Quanto as gigantes de tecnologia estão dispostas a pagar pelo seu prontuário médico? (Parte I)

Enquanto assistimos numerosos IPOs (Initial Public Offerings – ou aberturas de capital na Bolsa) de empresas da área de saúde no Brasil é interessante observar as movimentações das gigantes de tecnologia, também lembradas no mundo dos fundos de investimento pelo acróstico FAGA (Facebook, Apple, Google, Amazon). Elas tem o poder de mudar completamente o foco e a abordagem das empresas “tradicionais” de saúde tais como operadoras, laboratórios e farmacêuticas.

Por serem empresas extremamente capitalizadas, as gigantes de tecnologia funcionam como fundos de capital de risco, apostando em iniciativas que consideram mais promissoras, categorizadas basicamente em dois nichos: Aquelas que já são modelos de negócio tecnologicamente e/ou economicamente viáveis (resultados menores, entretanto mais seguros dado o panorama tecnológico atual) e projetos moonshots – com longo prazo e alto risco, mas que, se bem sucedidos mudam completamente o mercado, e, por que não, o futuro de toda a raça humana.

Só para termos uma ideia do impacto do qual estamos falando, vale lembrar que “resultados menores” para essas corporações, consistem em mercados mais tradicionais de alguns bilhões de dólares (como o de operadoras de saúde explorados pela plataforma de saúde onemedical.com, investida da Google Ventures) enquanto projetos moonshots, seriam algo como estender a longevidade humana para 200 ou 300 anos, como é o escopo da Calico, incorporada da Alphabet (holding sob a qual o próprio Google está alocado) cujo impacto financeiro é intangível nos dias de hoje.

Para viabilizar todos os tipos de projeto, sejam de alto ou baixo risco, o grande desafio que deve ser superado é a inflação da saúde. A elevação dos custos de materiais e serviços médicos e hospitalares é muito mais alta que a inflação geral, e este é um fenômeno global. Sendo assim, a forma mais eficiente de reduzir custos de saúde é evitar que as pessoas fiquem doentes, ou reduzir os danos causados por essas doenças. Isso passa pela consumerização da saúde (tema que abordei anteriormente nesse artigo), mas também envolve outros elementos: Para prever eventos baseados em dados históricos, geralmente, heterogêneos e incompletos, não podemos deixar de falar de inteligência artificial. Em uma análise superficial, todas as gigantes de tecnologia se encontrariam em pé de igualdade:

  • Facebook faz uso dessas técnicas para otimizar a exibição de anúncios e posts, e hoje já possui uma grande gama de ferramentas para a criação de bots do messenger;
  • Apple possui a assistente pessoal mais conhecida e interativa do mercado: Siri;
  • Google é o motor de busca que mais conhece sobre seus usuários e também possui uma assistente virtual integrada com diversos aplicativos e diversas iniciativas e empresas voltadas para AI e saúde;
  • Amazon desde seus primórdios usa algoritmos complexos para fazer recomendações de livros aos usuários e hoje usa sua assistente virtual, Alexa para entrar na casa de seus fiéis compradores.

Entretanto um olhar atualizado traz mudanças recentes nas posições da corrida pelo mercado de saúde. Para criar um sistema que preveja como e quando alguém vai desenvolver determinada enfermidade, temos que ter dois conjuntos de dados: uma “foto” dos diagnósticos dos atuais pacientes acometidos por essas doenças e outra dos seus hábitos, comportamentos e dados de saúde anteriores ao diagnóstico. Talvez hoje, essas gigantes consigam reunir a primeira parte da informação, mas para implementarem um modelo confiável de previsão de diagnósticos, devem incorporar ao seus atuais servidores, os prontuários médicos, pelo menos de parte dos seus milhões de usuários.

Nos próximos anos, cada uma dessas empresas irá explorar seu poder econômico, suas forças e vantagens competitivas visando se aproximar ao máximo do usuário final, ganhando sua confiança para obter esses dados tão preciosos e fechar a equação que pode destravar um mercado de 3 Trilhões de dólares (só nos EUA), e deslocar o oligopólio das tradicionais operadoras de saúde em favor das gigantes de tecnologia.